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Atlas Technologies2024Staff Product Designer, à frente da pesquisa

Fatal Model: humanizando os anunciantes por trás da plataforma, das entrevistas em vídeo aos novos OKRs

Uma pesquisa para aumentar a receita com os anunciantes da plataforma virou um retrato das pessoas por trás dela. Desenhei um fluxo de pesquisa assíncrono, com apoio de IA, que ouviu acompanhantes independentes em vídeo e validou os padrões com um questionário. Os achados viraram a base dos OKRs do ciclo de planejamento seguinte e de uma reorganização da Atlas Technologies em torno dos anunciantes.

Em vídeoEntrevistas assíncronas, respondidas no tempo de cada pessoa
4 perfisCada um com rotinas, objetivos e dores
Novos OKRsUma reestruturação para atender melhor os anunciantes
  • Pesquisa de métodos mistos
  • Síntese com IA
  • Segmentação
Empresa
Atlas Technologies, a empresa por trás do Fatal Model, plataforma brasileira onde acompanhantes independentes anunciam seus serviços
Meu papel
Staff Product Designer na tribo de anunciantes (ADs). Liderei a pesquisa do método à apresentação final
Time
Gestão de produto, ciência de dados, marketing e o time de product design
Período
2024 (primeiro semestre)
Escopo
Um case de pesquisa: nenhuma tela foi lançada a partir deste estudo

01 · A pergunta

Um briefing comercial sobre anunciantes que a gente mal conhecia.

Na Atlas Technologies, a empresa por trás do Fatal Model, eu trabalhava na tribo que atende os anunciantes (ADs): acompanhantes independentes que pagam por planos para aparecer na plataforma. O briefing era comercial: entender nossos anunciantes a ponto de encontrar caminhos para aumentar a rentabilidade do site.

As pessoas por trás dessa receita eram quase invisíveis dentro da empresa. A gente as conhecia como planos, pontos e posições no ranking. Por isso, desde o primeiro dia, o objetivo que dei à pesquisa foi humanizar esses usuários: ouvir essas pessoas como pessoas, com as palavras delas, antes de decidir qualquer coisa sobre o negócio.

O ponto de partida

Dentro da empresa, uma anunciante era um plano, uma pontuação e uma posição no ranking. Por trás de cada linha dessas havia alguém tocando o próprio negócio sozinha.

Por isso a apresentação dos resultados abriu com a rotina delas, nas palavras delas, antes de qualquer gráfico.

02 · O recorte

Quatro perfis que sustentam quase toda a plataforma.

Primeiro, era preciso decidir quem ouvir. Com o time de ciência de dados, segmentamos os anunciantes ativos com um modelo RFM, de quem sempre compra planos a quem nunca comprou nenhum.

O recorte · segmentação RFM Quatro perfis, de quem mais gasta com planos a quem nunca comprou nenhum.
ChampionsVeteranosSempre compram
LoyalLeaisCompram às vezes
PotentialMalabaristasComeçaram a comprar
FreeImprovisadoresNunca compraram
← gastam mais com planosgastam menos →
RQuando compraram pela última vez?
FCom que frequência compram?
MQuanto já geraram para a plataforma?
A maioriados anunciantes ativos, e da receita, está nesses quatro perfis

03 · O método

Entrevistas que cabiam na vida de quem a gente queria ouvir.

Entrevistas ao vivo seriam lentas, e pouco adequadas para quem valoriza a discrição, trabalha em horários irregulares e muitas vezes tem um segundo emprego. Então desenhei um fluxo assíncrono: o time gravou as perguntas em vídeo, e cada anunciante respondeu por vídeo, áudio ou texto, quando e onde se sentisse à vontade.

Depois, as respostas passaram por um pipeline: fala transcrita em texto, uma rodada de IA para agrupar respostas parecidas, um questionário para testar os padrões em escala e clusters que cruzavam o que as pessoas diziam com o que elas faziam.

O método Entrevistas qualitativas numa escala que sessões ao vivo não alcançariam.
01Entrevistas em vídeoPerguntas assíncronas no VideoAsk. Cada pessoa respondeu por vídeo, áudio ou texto, quando e onde se sentia segura.
02TranscriçãoToda resposta foi transcrita automaticamente, então cada entrevista podia ser lida, buscada e citada.
03Síntese com IAUma rodada de IA agrupou respostas parecidas e trouxe os temas recorrentes, que o time depois conferiu à mão.
04QuestionárioOs temas viraram um questionário, para ver quais padrões se sustentavam em escala.
05ClustersCruzar as respostas com dados de comportamento deu a cada perfil seus subgrupos, hábitos, objetivos e dores.
06ApresentaçãoPerfis contados como pessoas, com as próprias falas, apresentados à empresa como base para o ciclo seguinte.

04 · Os perfis

Quatro jeitos de viver a mesma profissão.

Cada perfil veio com seus subgrupos, rotinas, objetivos e dores, descritos a partir das pessoas que fazem parte dele. Veteranos e Leais mantêm a plataforma de pé. Malabaristas e Improvisadores são onde ela pode crescer, se conquistar a confiança deles.

VeteranosLucrativos · Estratégicos
  • Investem mais e conhecem melhor os planos, mas o retorno varia muito dentro do grupo
  • Põem o ganho antes do autocuidado: pulam refeições e respondem clientes até a hora de dormir
  • Conquistaram coisas grandes com o trabalho e planejam a saída: um apartamento, um negócio, um diploma
  • Se sentem pouco valorizados como clientes fiéis e veem o ranking como um jeito de arrancar dinheiro
LeaisO perfil mais satisfeito
  • Rotinas bem definidas, com espaço para academia, estudo, família e amigos
  • Valorizam a flexibilidade e a estabilidade financeira que a plataforma trouxe
  • Alguns, sobretudo os mais antigos e com custos fixos como aluguel, se preocupam com a renda que oscila
  • Veem a concorrência crescente no ranking como ameaça à própria visibilidade
MalabaristasDupla jornada
  • Dividem o tempo entre emprego formal, estudo ou home office e o trabalho como acompanhante
  • O objetivo central é uma renda fixa e previsível fora da profissão
  • Têm dificuldade de atrair clientes mesmo com plano pago, por isso seguem desconfiados
  • Descrevem a plataforma como burocrática, cheia de bugs e cara, e veem a verificação facial no login como um risco à discrição que o outro emprego exige
ImprovisadoresOciosos, entre empregos · Ocasionais
  • Nunca compraram um plano, e muitos já ganham razoavelmente sem ele
  • Admitem que não entendem nada de planos nem de ranking
  • Não têm um lugar fixo para receber clientes e dependem de apps de transporte
  • Os homens do grupo costumam ser procurados por clientes que eles não querem atender

Uma pergunta simples nos contou muita coisa. Quando pedimos que contassem um dia normal, do acordar ao dormir, cada perfil descreveu um dia diferente: trabalho que engole a hora das refeições, trabalho com horário próprio, trabalho espremido entre outro emprego, ou longas horas à espera de um cliente.

Um dia normal · a pergunta da rotina Quando pedimos que contassem um dia normal, cada perfil descreveu um dia diferente.
VeteranosO trabalho ocupa o dia. O autocuidado cabe nas brechas.
Comem quando o movimento dá uma trégua, às vezes uma vez só no dia
A tarde inteira ajustando o perfil para ter mais engajamento
Respondendo clientes até a hora de dormir
LeaisO trabalho tem hora marcada, e a vida tem espaço.
Acordam entre 9h e 11h, café da manhã saudável
Academia ou caminhada
Trabalho na plataforma a partir das 13h
Amigos, família, leitura, pintura, aula de idiomas
MalabaristasDuas jornadas em uma.
Começam cedo, às vezes às 5h
Emprego formal, home office ou doutorado
Clientes encaixados no meio, ou depois de um turno que acaba tarde
Fim de semana reservado para descanso e família
Improvisadores · OciososTempo de sobra, demanda de menos.
Quase sempre em casa: séries, podcasts, hobbies
Alguns procuram um novo emprego
Esperando cliente, às vezes um ou dois por semana
Improvisadores · OcasionaisO emprego fixo sempre vem primeiro.
Acordam cedo para fugir do trânsito, ou chegam de um turno da noite
Um dia inteiro no emprego fixo, de motorista de app a vendedor
Cliente só se couber no tempo livre que sobra
Trabalho como acompanhante na plataforma Outro emprego ou estudo Autocuidado e vida pessoal Tempo parado, à espera de clientes

Montado a partir das rotinas que os participantes descreveram nas entrevistas. Os blocos seguem a ordem do dia; a largura mostra ênfase, não horário.

Eu costumo almoçar tarde porque, fazendo isso, eu esqueço de comer.

Veteranos

Minha vida pessoal se resumiu à minha vida profissional.

Veteranos

Acordo lá pelas 9, vou pra academia e começo a trabalhar no Fatal Model a partir da 1 da tarde.

Leais

Tô trabalhando mais pra sobreviver do que pra viver.

Malabaristas

Daqui a cinco anos espero ter terminado a faculdade e estar trabalhando na minha área. Quando isso acontecer, saio da profissão.

Malabaristas

Não faço isso por luxo, nem pra conquistar grandes coisas. É pra sobreviver. Pra pagar minhas contas.

Improvisadores

Falas anonimizadas. Ninguém que participou é identificado.

Alguns achados deu para conferir com os dados da plataforma. Os Veteranos eram os que mais reclamavam de advertências e banimentos sem explicação clara, e os números batiam.

Triangulação · dados de comportamento Os anunciantes mais engajados também são os mais expostos às punições da plataforma.
VeteranosMais alta
LeaisAlta
MalabaristasBaixa
ImprovisadoresMais baixa

Parcela relativa de cada perfil com advertências na plataforma (números omitidos). Nas entrevistas, os anunciantes disseram que não entendiam o motivo das advertências e dos banimentos.

Planos e ranking eram o ponto em que o briefing comercial e a experiência se encontravam, e nenhum perfil lia os dois do mesmo jeito. O entendimento caía dos Veteranos aos Improvisadores, e a compra caía junto. Quem comprava sem entender sentia que tinha pagado por nada.

Planos e ranking · por perfil Os mesmos planos, e cinco relações bem diferentes com eles.
Veteranos · LucrativosA maioria dos Veteranos
Como compramCompram o tempo todo, alguns por semana para caber no bolso
O que recebem de voltaUm retorno claro e constante sobre o que pagaram
Como leem o rankingSão quem mais entende de planos e ranking, e muitos ainda chamam de “só um jeito de arrancar dinheiro das acompanhantes”
Veteranos · EstratégicosOs demais Veteranos
Como compramEscolhem a hora de cada compra: pulam o fim do mês e gastam mais quando há menos clientes buscando
O que recebem de voltaUm retorno menor pelo mesmo investimento
Como leem o rankingA mesma crítica, e a sensação de que um ranking único para tantas cidades e serviços é injusto com as cidades pequenas
LeaisO perfil mais satisfeito
Como compramCompram com regularidade. Alguns passaram de todos os planos para dois quando a renda caiu
O que recebem de voltaAdequado ou melhor, e quase imediato
Como leem o rankingA disputa crescente por visibilidade faz eles se perguntarem se vão continuar relevantes
MalabaristasDesconfiados dos planos
Como compramQuase sempre o plano mais barato, o que mostra o telefone
O que recebem de voltaAbaixo do esperado: num plano top, “parecia que eu estava pagando o mais básico”
Como leem o ranking“Não entendo muito bem como o ranking funciona”, e duvidam que ele mude a exposição
ImprovisadoresNunca compraram um plano
Como compramNunca. Os preços pareciam altos demais, e alguns tentaram pagar e não conseguiram
O que recebem de voltaGanham razoavelmente sem plano, então têm menos motivo para investir
Como leem o ranking“Nem sei o que é esse ranking”

Falas anonimizadas. O retorno é o que os participantes descreveram; números de receita foram omitidos.

05 · Além do briefing

As vulnerabilidades por trás de cada perfil.

A pesquisa era sobre rentabilidade, mas o único padrão comum aos quatro perfis não tinha nada a ver com planos. Em todos eles, os anunciantes falaram de clientes tóxicos, golpes, limites desrespeitados e um medo constante de violência. Escolhi fechar a apresentação sobre receita com esse achado, e dei à segurança o mesmo peso dos achados comerciais.

O que a gente não foi procurar

“A gente nunca sabe o que vai encontrar quando abre a porta.”

Em todos os perfis

Interações tóxicas fazem parte da rotina

Clientes grosseiros e desrespeitosos, pechincha o tempo todo e uma exposição diária que cobra um preço psicológico real.

Em todos os perfis

Curiosos e golpes

Gente pedindo foto e vídeo de graça, agendamentos em que ninguém aparece e tentativas de golpe, que deixam os anunciantes em alerta constante.

Em todos os perfis

Os limites nem sempre são respeitados

Muitos relatos de clientes pedindo coisas fora do combinado, já durante o atendimento.

Em todos os perfis

Uma sensação constante de vulnerabilidade

O medo de violência ao encontrar um cliente novo é, infelizmente, parte comum do trabalho.

O que pediram

Segurança pensada para quem anuncia

Um pedido claro por uma verificação mais rígida dos clientes, para proteger os anunciantes de possíveis ameaças.

O que mais valorizam

Reputação e segurança

A verificação facial e as mídias de comparação também foram vistas como proteção para eles, porque os clientes confiam mais na plataforma.

06 · Impacto

A apresentação orientou os OKRs seguintes e uma reorganização.

Apresentei a pesquisa para a empresa como quatro perfis com nome, cada um contado pelas pessoas que fazem parte dele. A apresentação virou a base dos OKRs e de uma reorganização interna em torno dos anunciantes no ciclo de planejamento seguinte, com segurança, clareza e justiça pesando tanto quanto a receita.

Impacto

Uma pesquisa sobre receita que virou a base de como a empresa se organizou em torno das pessoas por trás dela.

Em vídeoAnunciantes ouvidos de forma assíncrona, no tempo de cada um
Em escalaUm questionário que confirmou os padrões
4Perfis, cada um com suas rotinas, objetivos e dores
Novos OKRsA base do ciclo de planejamento seguinte e de uma reorganização em torno dos anunciantes
Segurança para anunciantesClareza sobre planos e rankingModeração justa e explicadaReconhecimento da fidelidadeAcesso discreto

As tags são as áreas de oportunidade que o estudo abriu, tiradas dos insights acima.

Cada área de oportunidade nasce de algo que os anunciantes pediram. Os pedidos que ainda não dava para atender ficaram na apresentação como perguntas em aberto.

Das palavras deles para o trabalho Cada área de oportunidade nasce de algo que os anunciantes pediram.

Um pedido claro por uma verificação mais rígida dos clientes, para proteger os anunciantes de possíveis ameaças.Achado em todos os perfis

01Segurança para anunciantes

“Três dias de punição, e no fim eu nem sabia por quê.”Veteranos

“As punições podiam ser mais leves. Se não for nada grave, dá uma chance de a pessoa corrigir em vez de banir.”Veteranos

02Moderação justa e explicada

“Os planos eu já vi, mas essa coisa de ranking eu não sei o que é.”Improvisadores

“Não entendo muito bem como o ranking funciona. Sei que ponto e ranking estão ligados.”Malabaristas

03Clareza sobre planos e ranking

“Seria ótimo lançar cupom pra quem sempre compra todos os pacotes.”Veteranos

“Pra quem entrou há muito tempo não tem desconto nenhum. As meninas novas ganham um monte.”Veteranos

04Reconhecimento da fidelidade

“Mostrar o rosto toda vez que entro é burocrático. Às vezes estou num lugar onde não dá, por causa do meu outro trabalho.”Malabaristas

05Acesso discreto
Também apareceram, e ficaram como perguntas em aberto
  • Um preço mínimo por atendimento, para frear a pechincha (Veteranos)
  • Planos que ativam na hora, e perfis que não travam (Malabaristas)
  • Vouchers mensais para mudar de cidade, para quem tem plano top (Veteranos)

Pedidos anonimizados. Ninguém que participou é identificado.

Próxima rodada · Perfis 2.0 Começamos pelo meio do ciclo de vida. A próxima rodada vai às duas pontas.
Antes do cicloQuem ainda não se cadastrou
Este estudoDe quem nunca comprou aos mais fiéis
Fim do cicloAnunciantes de saída da plataforma

07 · Por que importa

O que esta pesquisa diz sobre como eu trabalho.

O que eu manteria
  • O formato assíncrono: perguntas em vídeo, respondidas no tempo de cada pessoa, chegaram a gente que nenhuma agenda de entrevistas ao vivo alcançaria
  • Fechar uma apresentação sobre receita falando de segurança. Foi o único achado comum a todos os perfis, e a empresa agiu a partir dele
O que eu mudaria
  • Ouvir quem está saindo da plataforma, e quem nunca se cadastrou, já nesta rodada, em vez de deixar para uma segunda
  • Amarrar um OKR mensurável a cada área de oportunidade na própria apresentação, para a reestruturação já começar com números a bater
01Desenhei o método e conduzi a pesquisaUm método assíncrono, com apoio de IA, que chegou a gente que entrevista ao vivo nunca alcançaria, e depois testou os padrões em escala.
02Humanizei um público estigmatizadoAnunciantes apresentados como pessoas, com rotinas, objetivos e medos próprios.
03Segui a evidência além do briefingUma pergunta sobre rentabilidade revelou vulnerabilidade, e o estudo abriu espaço para ela.
04Transformei insight em organizaçãoA apresentação virou a base dos OKRs do ciclo seguinte e de uma reorganização em torno dos anunciantes.
05Cruzei o que diziam com o que faziamPartimos de um recorte RFM com ciência de dados e conferimos o que as pessoas diziam com o que a plataforma registrava.
06Deixei as perguntas abertas à vistaPedidos que a empresa ainda não podia atender ficaram na apresentação como perguntas em aberto.
Próximo case · Bastidores Bastidores: de blog de notícias virais a publicação de crítica, e um negócio melhor